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sexta-feira, novembro 17, 2006

"É o final da vida e o início da sobrevivência"



No ano de 1854, o presidente dos Estados Unidos faz a uma tribo indígena a proposta de comprar grande parte de suas terras, oferecendo, em troca, a concessão de outra "reserva".

Reproduzo aqui o texto da resposta do chefe Seatle, que tem sido considerado através dos tempos como um dos mais belos e profundos pronunciamentos já feitos a respeito da defesa do meio-ambiente, mas, mais do que isso, na minha opinião, um verdadeiro exemplo de respeito pela diversidade.

É demasiado extenso para aqui ser "públicado", mas mesmo assim não hesito em dar a conhecer:

"Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?
Essa ideia parece-nos estranha.
Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo.
Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e insecto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo.
A seiva que percorre o corpo das árvores, carrega consigo as lembranças do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem a sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas.
Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois é a mãe do homem vermelho.
Somos parte da terra e ela faz parte de nós.
As flores perfumadas são nossas irmãs, o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos.
Os picos rochosos, os sulcos húmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem - todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar a nossa terra, pede muito de nós.
O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos.
Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos.
Portanto, nós vamos considerar a sua oferta de comprar a nossa terra. Mas isso não será fácil.
Esta terra é sagrada para nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue dos nossos antepassados.

Se lhes vendermos a terra, devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo.
O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam a nossa sede. Os rios carregam as nossas canoas e alimentam as nossas crianças.

Se lhes vendermos a nossa terra, devem lembrar-se e ensinar aos seus filhos que os rios são nosso irmãos, e seus também. E, portanto, devem dar aos rios a bondade que dedicarem a qualquer irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende os nossos costumes. Uma porção de terra para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra coisa, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra, aquilo que necessita.
A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue o seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Arranca da terra aquilo que seria de seus filhos e netos.

A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos.
Trata a sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos.
Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.

Eu não sei, os nossos costumes são diferentes dos seus.
A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho.
Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.

Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco.
Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar das folhas na primavera ou o bater das asas de um insecto.
Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo.
O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite?
Eu sou um homem vermelho e não compreendo.
O índio prefere o suave murmúrio do vento, encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.

O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro- o animal, a árvore, o homem, todos compartilhamos o mesmo sopro.
Parece que o homem branco não sente o ar respirar. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro.

Mas se vendermos a nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar-se que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha o seu espírito com toda a vida que mantém.
O vento que deu ao nosso avó o seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro.
Se lhes vendermos a nossa terra, devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.

Portanto, vamos meditar sobre a sua oferta de comprar a nossa terra.
Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir.
Vi um milhar de búfalos a apodrecer na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um comboio que passava.
Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecermos vivos.

O que é o homem sem os animais?
Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.
Devem ensinar às vossas crianças que o solo a seus pés é a cinza dos nossos avós. Para que respeitem a terra, digam aos seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas do nosso povo.

Ensinem às vossas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe.
Tudo o que acontece à terra, acontecerá aos filhos da terra.
Se os homens cospem na terra, estão a cuspir em si mesmos.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem: o homem pertence à terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma
família.
Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra.
O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios.
Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.

Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum.
É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos.
De uma coisa estamos certos – e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível. Ele é o Deus do homem vermelho e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra é-lhe preciosa e feri-la é desprezar o seu criador.
Os brancos também passarão: talvez mais cedo que todas as outras tribos.

Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejectos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho.

Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde está o arvoredo?
Desapareceu.
Onde está a águia?

Desapareceu.

É o final da vida e o início da sobrevivência"

6 Comments:

  • Carla, Obrigada por publicar e dar a conhecer este texto maravilhoso. Creio que nunca o tinha lido - ou, se li, passei por ele o meu olhar negligente, insensível, o meu olhar "de branco" que não sabe o valor da Natureza. É realmente um texto notável em vários sentidos. Mas, ao percorrê-lo, as perguntas que começavam a formar-se, no meu íntimo, eram as seguintes: em que fase do nosso desenvolvimento deixámos de compreender a ligação fundamental que nos une à Natureza?
    Quando demos esse passo em falso? Estaremos ainda a tempo de remediar os erros cometidos? Espero sinceramente que a Humanidade tenha ainda oportunidade de reorientar o seu percurso e restabelecer a sua ligação vital à Natureza!
    O blog continua lindo, como sempre, e visito-o sempre que posso (mas nem sempre comento, porque o tempo é limitado...) Um abraço, Ilona

    By Anonymous Ilona Bastos, at 12:55 da manhã, novembro 20, 2006  

  • Sem querer entrar em grandes dissertações filosóficas e cientificas, penso que deixámos de dar valor à natureza logo após o grande "boom" da revolução indústrial, onde se pensou que a máquina superava todas as potencialidades da natureza e que o homem, único ser racional estaria num patamar superior a todos os animais e plantas. Assim sendo o homem como ser superior e a máquina como movimentadora de todos os sonhos da produção e criação de excedentes, colocaram em segundo plano o papel da natureza. Não sei se iremo a tempo.. o que sei certamente é que este discurso do Chefe Seatle, em 1854, é hoje tão actual... O chefe perdeu as suas terras, mas será que forma mesmo os indigenas os únicos a perder???

    By Blogger Carla Ferreira, at 4:32 da tarde, novembro 20, 2006  

  • AH.. Obrigado Ilona... É sempre tão bom ler os seus comentários!

    By Blogger Carla Ferreira, at 4:33 da tarde, novembro 20, 2006  

  • Do you by any chance happen to know where to find the letter in english. The Babelfish translater makes the most of it, but it would be interresting to read it in its´s origin.

    Regards from the North

    By Anonymous Anónimo, at 2:05 da tarde, novembro 22, 2006  

  • I Agree...
    The original is most interesting.

    You can find in:

    http://www.barefootsworld.net/seattle.html

    Or..

    http://www.csun.edu/~vcpsy00h/seattle.htm

    Thanks for your comment...

    By Blogger Carla Ferreira, at 6:46 da tarde, novembro 22, 2006  

  • Thank you, Sunshine !

    N

    By Anonymous Anónimo, at 7:45 da tarde, novembro 22, 2006  

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